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quarta-feira, 24 de outubro de 2012


Distância

Desejo desesperadamente estar contigo.
Sentir em mim o teu doce afago.
A distância que no pensamento trago,
Não ajuda, mas mesmo assim sigo.

Este intervalo de tempo que nos desune,
Que fragiliza o tanto que te quero,
Não me deixa pensar… Entro em desespero.
As horas passam devagar. Quero ser-lhe imune.

Não te esqueças de mim, eu peço,
Pois nem em mil anos te esqueço…
 
Miguel Coelho
 
 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012


Com vertebras


Do profundo oceano uma criatura…
Arcaica, surge na era antiga.
De aspeto frágil a sua vida periga,
Para esse peixe inicia a aventura.

Adquire vigor e até barbatanas.
A época favorece a dupla vida,
Com bravura sai da sua guarida.
Parte para terra, anfíbio com ganas.

Passo a passo adentra no vale fértil,
A pele seca afasta-o do lago,
Põe ovos com casca! Toque de mago.

Cruza muitas épocas o nosso réptil,
Arrefece! Cobre o corpo com pelo.
Surgem os mamíferos! Bichos sem paralelo.
 
Miguel Coelho
 
 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012


Cerejas

Gosto de cerejas,
Vermelhadas, redondas e suculentas,
Gosto quando me beijas,
Com lábios saborosos e boca sumarenta.
Gosto de subir o arvoredo,
Morder o fruto, perfurar a sua carne.
Gosto de ficar nesse enredo,
Sentir o ar e descer pelo arame.
Gosto de oferecer,
Eliminar essa necessidade
Gosto de te socorrer,
Mesmo perdendo a ingenuidade.

Miguel Coelho


quarta-feira, 17 de outubro de 2012


Medo

Temo, antecipadamente, o que me rodeia.
Fujo do novo, do atual, escondo-me desse vómito,
Mas tenho que ir… Ouçam o meu grito.
Fico em alerta. Alguém me receia?

Com trémulos passos inicio o trajeto,
De me libertar desta opressão.
É fácil! Dizem-me para utilizar a razão.
Porém que pode fazer um pobre sem teto?

Sem força desisto logo após a primeira tentativa.
No fim apareces tu… A minha alternativa.

Miguel Coelho

terça-feira, 16 de outubro de 2012


Tu

Deixo-me cair no teu colo,
No suave abraço do teu peito.
Enrolo-me em ti com pouco jeito,
Mas juntos montámos mais um tijolo.

Arrebatas-me, mais um pouco, a cada respirar.
O teu alento acarinha o meu íntimo.
Fico ébrio até ao mais ínfimo
Pedaço de vida, que do mundo brotar…

És a casa segura onde choro e rio…
És o espaço firme que preenche o meu vazio.

Miguel Coelho


terça-feira, 2 de outubro de 2012


Voar


Percorro os trilhos da minha aldeia.
Olho em volta e deixo-me esmagar.
O tempo passa no meu relógio de areia.
Estou preso à terra, mas quero voar.

O aroma desta terra corre nas veias,
De gente com histórias para lembrar.
Homens e mulheres de vida cheias,
Contudo, estou preso à terra e quero voar.

Nas minhas mãos sinto o pulsar da seiva,
Que sobe o tronco da envelhecida oliva.

Enlaçado à árvore, reparo numa aranha a baloiçar,
Na sua teia, capturando o inseto mais distraído.

Embeiçado observo o mundo diminuído.
Porém, como gostava puder voar.

Miguel Coelho


 
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