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sábado, 25 de maio de 2013


Cansado

O fim do dia chega,
O meu corpo carrega,
O cansaço do labor,
O odor do suor.
A manhã clara e quente,
Corou a pele num luzente.
A andorinha do entardecer leva,
Esse calor enquanto navega.
As pedras soltas que juntei,
Relembram tantas que ainda porei.
O dia de hoje está a terminar,
Mas o amanhã não permite descansar…

Miguel Coelho



domingo, 19 de maio de 2013


Agoirento

Sobrevoa-me o abutre agoirento.
Impede-me de pensar e sentir.
Não deixa o dia de ontem partir.
O amanhã não passa de um alento.

O decrépito azul que afugento
Esconde o vermelho a carpir.
Não aguento em mim este fingir,
De que o chão não está lamacento.

O velho quebra-ossos continua,
A distrair os outros enquanto gradua,
A classificação que ninguém entende.

O sorriso doce nada esconde,
Porém a verdade nunca responde.
Jogar assim, ninguém compreende.

Miguel Coelho


quinta-feira, 16 de maio de 2013


Quero
 
Perder-me nas palavras quando digo: “Amo”.
Sentir a brisa na face quando assalto a montanha.
Poder acordar ao lado de quem me entranha.
Andar sozinho, amparado no teu ramo.
Desabar no vazio sabendo que vou ser agarrado.
Olhar o por do sol na praia desnuda.
Escrever umas juras como Pablo Neruda.
Não segurar o choro abafado.
Ouvir o silêncio entre a multidão.
Caminhar descalço no passeio espinhoso.
Acordar dentro de um sonho saudoso.
E quando estiver a fugir pegar forte na tua mão.

Miguel Coelho


sexta-feira, 10 de maio de 2013


Momento

O instante perfeito no tempo passou.
A digna vontade de vencer continua
Contudo, o pavio da vela recua,
Como aquele que um dia o apoiou.

As elaboradas falas que o livro articulou,
Doaram o saber que aos poucos se situa,
Dentro do cérebro. Ele ganhou cultura.
A erudição tornou-se vazia, nada achou.

Hoje, caminha sozinho por terra erma.
Tenta entender porquê enferma.
O momento passou e tudo mudou.

Ninguém se lembra do seu nome.
Tenta uma e outra vez e tudo some.
Sofre! No caminho ninguém se imutou.

Miguel Coelho


quarta-feira, 8 de maio de 2013


A nossa história

Tudo começou num singelo ponto.
Com princípio perdido no passado
Fim num futuro infinito e afagado,
O nosso "era uma vez" é um conto.
Não há príncipe na nossa história
Montado em fogoso corcel.
Nem princesa colorida a pincel,
Na torre mais alta escondida da escória.
Não tenho castelo,
Nem animal personificado.
Nunca travei um duelo.
Porém, por ti, sempre me senti amado.
O nosso “era uma vez”
Tem muitas certezas e nenhum “talvez”.

Miguel Coelho

domingo, 5 de maio de 2013


Manhã

Vejo um corpo lançado no meu leito.
Recorda-me a noite que já esqueci,
Inebriado no álcool que usufruí.
O vulto despido veste-me a preceito.

O pedaço de lençol imperfeito,
Pouco encobre, porém não saí.
Olvidada nos sonhos levemente sorri.
Da poltrona este quadro aproveito.

A primeira centelha toca o rosto segredado.
Ilumina, de soslaio, o cabelo amendoado.
Busco o comando, desejo parar o momento.

Arrebatado, percorro lentamente a pele
Aguardo que o peito desnudo se revele.
A esquecida desperta, encontra o meu alento.

Miguel Coelho


 
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